As nove partes do ser

 As nove partes do ser:


Como todo conhecimento antigo, existe algum ruído na sua comunicação e transmissão através das eras. No entanto, conseguimos traçar uma mediana mais ou menos confiável se nos concentrarmos no período de transição entre o antigo e médio império. Isso porque as concepções ainda são, por assim dizer, mais egípcias de fato. No novo império as influências gregas e romanas foram consideravelmente ampliadas. Esses conceitos eram sacerdotais e provavelmente o povo egípcio como um todo conhecia tanto dessa teoria, quanto um cristão conhece o contexto cabalístico do velho testamento. 

Segundo essa teoria todos seres humanos podem ser divididos nas partes Aufu ou khat,Ka, Ren, Sekhem, Khu, Ab, Ba, Sahu e Khaibit(ou haidit). Animais sagrados têm mais partes em comum com os seres humanos que os demais. Ter mais partes não nos faz mais especiais que os animais, segundo essa teoria. Só nos faz mais complexos, o que necessariamente não é uma boa coisa.  

É normal que em nossa atual encarnação sejamos mais propensos a valorizar uma certa parte. A nossa parte mais forte e energeticamente carregada  tem um propósito kármico nessa existência atual. É provável que tenhamos carregado magneticamente essa parte em diversas vidas passadas e por isso ela tem muito a ver com nosso propósito no momento atual. Detectar essa parte mais carregada é bem simples. A descrição deve nos bastar para reconhecer as suas manifestações. 

Aufu é nosso corpo físico. Nosso veículo neste plano existencial. Nossa consciência desse corpo, a sexualidade, saúde e vitalidade dele são parte do conceito. Ela faz oposição ao seu reflexo no mundo espiritual conhecido como Sahu. Essa é literalmente a nossa parte que podemos tocar e com ela interagimos com o universo ao nosso redor. Pessoas com o aufu muito carregado costumam adorar os prazeres do mundo e a preservação de sua saúde ao mesmo tempo. Algumas levam isso longe demais e estabelecem uma relação de culto ao corpo, desvalorizando os demais aspectos.  

Ao redor do aufu, existe uma força que o protege e cerca. Desde o nascimento até algum tempo após ao que chamamos de morte.  O conceito é semelhante ao de anjo da guarda, com uma diferença essencial, não é uma força exterior. Ka é seu nome e nos protege às vezes em forma de medo, prudência ou intuições. A parte se sente responsável por nossa segurança e também de nossas posses materiais. Por vezes se estende a proteger pessoas queridas. Pessoas mais sensíveis são capazes de enxergar o Ka das pessoas e existem relatos que são extremamente parecidos com a forma original do corpo da pessoa, mais luminosa e mais jovial do que a pessoa no momento atual. Algumas pessoas, almas velhas, têm o Ka em forma mais idosa e que passa a impressão de sabedoria. Raramente o Ka se afasta do corpo físico e não é incomum que ocupe o mesmo espaço que ele, especialmente durante o sono. Quem tem o Ka como parte mais carregada tende a ser excessivamente cuidadoso e até mesmo paranóico. Mania de limpeza, germofobia e TOC não são incomuns. 

Ren talvez seja a parte do ser mais complexa de entender. Ela é móvel, multifacetada e extremamente poderosa. Muito do que fazemos em heka depende dela. Ren envolve nosso nome de nascimento, nossos nomes mágickos, palavras pronunciadas e escritas e formas de comunicação. Pode ser até mesmo relativa à nossa capacidade de expressão como um todo. As letras do alfabeto hieroglífico são sagradas e nos revelam vibrações de nosso nome. Essas vibrações afetam sutilmente tudo ao nosso redor. Elas são forças criadoras que nos permitem mudar ou movimentar o que desejamos. Existem muitas camadas dessa força. Algumas delas são mais mundanas e outras mais espirituais. Essa é a força de nossa cultura, dos registros e de tudo que isso implica direta e indiretamente. É comum ao iniciado ou magista alterar seu nome espiritual de acordo com sua fase ritualística. Ajustar melhor seu nome para criar o propósito desejado. O nome nos define em alguma medida. O processo de individuação pode ser representado por uma escolha bem feita de nome. No princípio do Universo, nomes mágickos foram invocados e sintonizaram a criação. A primeira divindade, Ptah, emanou do Nun, oceano primordial, e com suas palavras criou tudo no Universo. A sua criação se deu pela condensação das águas primordiais. É possível que isso tenha sido causado também por vibrações. Pessoas que tem o Ren muito forte costumam amar as palavras escritas, faladas e suas ramificações. Pessoas cultas, acadêmicos, linguistas, poetas e muitas outras possíveis variações. 

Sekhem é um conceito universal. Facilmente encontramos semelhantes em outras culturas. O conceito chinês de Chi é o que me parece mais afinado. Sekhem significa força ou poder e é o elemento básico de tudo que existe no universo. É nossa energia fundamental. O que nos sustenta fisicamente e no espírito. Tudo no universo é feito de Sekhem. É como o conceito científico de átomo, expandido de uma forma filosófica. As vibrações afetam o Sekhem e ele causa as mudanças em resposta. Assim como a radiação é capaz de afetar os átomos. A ideia me parece bastante semelhante.  O Sekhem é invisível, mas é extremamente fácil de sentir. Na maioria das vezes flui como água ou fumaça e se adere aquilo que lhe for mais adequado. O Sekhem pode ser desassociado, mas nunca destruído. Quem tem o Sekhem muito forte é sempre notado. Nem sempre isso quer dizer que a pessoa está em equilíbrio ou que tem uma energia agradável. Excesso de sekhem pode revelar um grande desequilíbrio. Quem tem grande quantidade de Sekhem balanceado, tem sempre disposição e é uma pessoa magnética. Atraente para quase todo mundo. Um Sekhem em desarmonia é incômodo e costuma repelir a maior parte das pessoas. 

O que impede que nossas partes se afastem é uma energia de integração chamada Khu. Ela mantém unidas todas as demais partes e pode ser entendida pela responsável pela manutenção de nossa vida. Quando o Khu se dissolve nós morremos fisicamente. É a primeira parte que se desfaz e se dissolve em sekhem. Antes de fazê-lo, registra em nosso ab, tudo que deve ser transportado ao Sahu. Para mim se manifesta como uma espécie sutil de carga elétrica que une todo o seu ser. Outras pessoas me relataram que a sentem como um imã, que se localiza acima do estômago e que cria uma espécie de força gravitacional. Quem tem essa parte muito carregada tende a viver uma longa vida e ter poucas doenças e uma recuperação extremamente veloz. 

Ab, o coração. Para a magia egípcia antiga, tem uma função muito diferente da que lhe é atribuída hoje. Pensamos o coração como o centro de nossas emoções, enquanto para os egípcios antigos simbolizava o registro de tudo que vivemos nessa vida. Isso lhe concede uma função muito especial. No tribunal dos mortos, nosso coração será pesado contra a pena de Maat. Nele constará então tudo o que vivemos. O coração bate em nosso peito, escrevendo tudo que nos ocorre. Eu gosto de pensar que existe um terreno comum entre as nossas filosofias. Nossas memórias são emocionais. Lembramos mais facilmente daquilo que nos impressiona negativamente ou positivamente no sentido emocional. Quem tem o Ab muito forte costuma lembrar de muito do que viveu, mesmo do que passou anos atrás. Algumas pessoas lembram de sua infância primordial e ouvi relatos de quem acredita lembrar do próprio nascimento. 

Em oposição complementar ao Ab existe o Ba. Representado em diversas pinturas e esculturas egípcias como um passarinho com cabeça humana. Ele voa entre nossas partes levando recados, energia, percepções, intuições e tudo que as partes quiserem comunicar entre elas. A confusão e a dissensão interna podem nascer aqui. Essa parte é móvel e ágil. Lembra um pouco nosso intelecto, mas se comunica bastante com nossa espiritualidade. Talvez possa ser comparada com uma mente que tem abundância de inteligência emocional. Não deixa de existir quando morremos e se junta ao Sahu assim que consegue se desembaraçar dos processos mundanos. Um ba muito carregado energeticamente implica normalmente em inquietude física, emocional e espiritual. Uma pessoa que quer sempre viver novas experiências e aventuras é o usual. Uma grande intuição e incapacidade de separar o físico do espiritual não é incomum. 

Khaibit ou haidit é a força motriz do desejo e da agressividade. Nossa parte mais entrópica e responsável tanto por nosso prazer quanto por nosso instinto destrutivo. É daqui que vem nossos impulsos e desejos, nossa sede de viver. A força se manifesta como uma sombra que nos rodeia e não se afasta muito de nosso corpo. É a opositora competidora do Ka. Como força natural e em equilíbrio é muito importante em nossas vidas. Afinal é através do desejo sexual que somos consequentemente criados. O lado complicado de lidar dessa força é que o excesso é sua natureza. Sua má fama costuma ser causada por isso. Mas é nossa sombra e é tão natural quanto nossa luz. Quem não entende isso se enfraquece regularmente perante ela. Um khaibit balanceado é sedutor, estimula o prazer e tudo que há de bom para ser aproveitado. A sua relação com o Ka, nesse caso, é menos excludente e se complementam de uma forma não destrutiva. O khaibit desgovernado é o mais comum e mesmo quem não nasceu com essa tendência, pode adquiri-la se tiver um hábito de bebidas e ou drogas. A destruição que isso pode causar nunca passa despercebida. Costuma se manifestar como uma fome ou sede que nunca é plenamente saciada. Fúria desmedida e dissociação social são os reflexos mais comuns. O khaibit balanceado, no entanto, reverbera e transborda como força. Uma atitude que cria respeito ou medo em quem se aproxima. A aura guerreira. Pessoas que nascem com o Khaibit muito forte costumam ter rompantes de fúria, gostar de beber e ter uma sexualidade bem pronunciada. Ao envelhecer costumam equilibrar essa energia melhor. Pessoas que adquirem o khaibit forte tem dificuldade de equilibrar essa energia. Algumas precisam de fortalecer o Ka para combater ou controlar suas tendências destrutivas. 

Finalmente o Sahu, a parte puramente espiritual. É equivalente ao conceito thelemita de Sagrado Anjo Guardião. É uma parte espiritual à qual raramente temos acesso e quando temos é parcial. Somente quando deixamos o corpo físico temos total acesso a ela. Nossa busca espiritual é possibilitar uma melhor comunicação com ela, para que nos oriente melhor sobre nossa órbita pessoal. Nela residem as memórias de nossas vidas passadas. Somente ao nos reunir com ela somos capazes de contemplar nossa totalidade. Também é nosso filtro para as experiências divinas. Religiões como o cristianismo delegam essa função aos seus clérigos. A egrégora nesse caso acessa o seu Sahu o direcionando. Numa relação mais espiritualista, somos conduzidos pelo Sahu para nosso processo personalizado. 


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